segunda-feira, 28 de outubro de 2013

PASTOR RENEO FICHER, INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO, PARTE 6



Introdução ao Novo testamento Parte 6
Pastor Reneo Ficher
CRÍTICA DA FORMA
A Crítica da Forma é um método de estudo que lida com o estágio pré-literário da tradição dos Evangelhos, quando o material foi transmi­tido oralmente. A palavra Formgeschichte apareceu no subtítulo de Ágnostos Theós, de Eduard Norden, em 1913. Ela significa "história das formas". A escola, contudo, tem seu nome na menos significativa de suas obras (E.C. Colwell, The Study of the Bible — O Estudo da Bíblia — p. 162). Talvez a principal contribuição não seja o estudo das formas, mas a ênfase colocada sobre a comunidade primitiva em que a tradição foi formada.
Em 1901, Wilhelm Wrede publicou sua obra de maior relevo, Das Messiasgeheimnis in den Evangelien — O Segredo Messiânico nos Evan­gelhos — em que ele procurou provar que Marcos, historicamente, não merece confiança. Ele acreditava que todos os elementos acerca do "Segredo Messiânico" foram criados e inseridos pela Igreja. Uma vez que Mateus e Lucas usaram Marcos, este também adaptara suas "fontes" e era indigno de confiança.
Nem toda tradição foi primitiva, nem toda tradição primitiva foi precisa, e Marcos foi influenciado pela teoria do "Segredo Messiânico" criada pela Igreja. Julius Wellhausen, em Das Evangelium Lucae — O Evangelho de Lucas — 1903, concordou com Wrede, ao dizer que a estrutura dos Sinópticos é artificial e as inserções editoriais não são históricas. Ele também disse que o documento "Q" não merece confiança.
Johannes Weiss (The Oldest Gospel — O Mais Antigo Evangelho — 1903) respondeu ao argumento de Wrede e mostrou que Marcos era quase 100 por-cento autêntico, mas permitiu algum material ser classificado como acréscimos inseridos pela Igreja. Em 1905, Wendland (Primitive Mark — Marcos Primitivo) propôs que Marcos teve duas fontes e que elas foram imperfeitamente unidas por ele. Estas fontes foram orais e cha­madas Apothegmas (Máximas) e Wonder Stories (Histórias Miraculosas).
Por volta de 1917, Hermann Gunkel estava usando métodos de pesquisa, desenvolvidos no estudo da literatura oriental e grega primitiva, para a análise das tradições em Gênesis e nos Salmos. A idéia era recuperar o Sitz im Leben no qual as tradições surgiram. Depois este método de pesquisa começou a ser aplicado à literatura do Novo Testamento e especialmente aos Evangelhos Sinópticos.
Depois de 1918, quatro livros apareceram dentro de poucos anos e independentemente uns dos outros. Estes quatro livros sugerem uma tendência, nos estudos do Novo Testamento, que é denominada "Crítica da Forma do Novo Testamento". O primeiro livro a aparecer foi Der Rahmen der Geschichte Jesu (A Estrutura da História de Jesus), de Karl Schmidt. Schmidt escreveu que Marcos não era de confiança nem crono­lógica nem topograficamente, para biografia.
Marcos amarrou juntas histórias e anedotas separadas, com suas próprias inserções de redação, e usando a palavra euthús (imediatamente), para fazer uma transição suave de uma narrativa para outra. Mateus e Lucas alteraram a ordem de Marcos e, assim, devem ter pensado muito pouco acerca dela. Ele presume que Marcos usou suas fontes e Mateus e Lucas usaram as deles.
Martin Dibellius foi um crítico da forma conservador. Seu livro, Die Formengeschichte des Evangeliums — A História das Formas dos Evangelhos (1919), é ainda um clássico no campo da Crítica da Forma. Sua classificação de "formas" é mais largamente usada que qualquer outro sistema.
Outro clássico, Die Geschichte der Synoptischen Tradition (A História da Tradição Sinóptica), de Rudolf Bultmann, apareceu no mesmo ano. Esta obra é muito mais liberal que a de Dibellius e teve influência bem maior na teologia liberal do que talvez qualquer outro volume. Outro autor, Martin Albertz, publicou sua obra, Die Synoptis­chen Streitgesprâche(A Linguagem dos Sinópticos em Debate), em 1921. Parece que ele não tinha conhecimento dos três livros mencionados acima, mas chegou às mesmas conclusões que eles.
Não há muito acordo quanto à classificação do material; mas há acordo em que todas as narrativas foram produzidas por causa da necessidade de proclamação ou instrução. Martin Dibellius acreditava que as tradi­ções receberam suas formas das necessidades da pregação missionária. Ele tem cinco classificações: (1) Paradigmas — São narrativas curtas, estimadas pelos ensinos de Jesus; os detalhes são secundários. (2) Novelescas — São estimadas pelo próprio conteúdo. Mostram o poder de Jesus sobre a natureza. (3) Ditos — São valiosos como ensinos catequéticos. (4) Lendas — São narrativas acerca de homens santos e lugares santos. (5) Mitos — São eventos sobrenaturais e têm muito pouco valor histórico.
Rudolf Bultmann, por outro lado, escreveu que a tradição recebeu sua forma das controvérsias que surgiram na comunidade. Ele alista quatro formas separadas: (1) Apophthegmata — São os paradigmas de Dibellius. (2) Ditos — São palavras de sabedoria, "Q", e locuções proféticas e apocalípticas, regras de lei e parábolas. A maior parte destas são criações da igreja. (3) Histórias Miraculosas — Sem historicidade. (4) Lendas — Não têm valor histórico.
Talvez fosse mais benéfico, para o estudante moderno, escolher a termi­nologia que é mais fácil de ser entendida. Os parágrafos a seguir são apresentados para demonstrar algumas das conclusões do método da Crítica da Forma, para a reprodução da tradição oral pré-literária da comunidade cristã primitiva.
A História Simples — As histórias simples são variadamente chamadas Paradigmas (Dibellius), Apophthegmata (Bultmann) e Histórias de Pronunciamento (Vincent Taylor). Este é o tipo de história que é bem acabada, completa em si, não pressupõe nenhuma ligação com o que precede ou se segue, e mostra brevidade e simplicidade. Há uma falta muito notável de detalhe colorido. Geralmente os personagens são identificados quanto ao nome. Este tipo de narrativa está, provavelmente, mais próximo ao evento real do que qualquer uma das outras "formas". Os seguintes são os exemplos relativamente puros de Marcos e exemplos menos puros de Marcos e Lucas.
PUROS                            MENOS PUROS
O Paralítico, 2:1-12              A Cura na Sinagoga, 1:23-28
O Jejum, 2:18-20                  A Vocação de Levi, 2:13-17
A Colheita de Espigas, 2:23-28     Jesus em Nazaré, 6:1-6
A Cura da Mão Mirrada, 3:1-6    O Jovem Rico, 10:17-29
A Família de Jesus, 3:31-35           Os Filhos de Zebedeu, 10:35-45
A Bênção das Crianças, 10:13-16 O Homem Cego de Jericó,
10:46-52
O Tributo, 12:13-17             A Purificação do Templo, 11:15-19
 A Unção de Jesus, 14:3-9              A Pergunta dos Saduceus,
  12:18-23
Os Samaritanos Inospitaleiros,
     Lucas 9:51-56
A Cura dum Hidrópico,
    Lucas 14:1-6
Em comparação com as passagens correspondentes, em Mateus e Lucas, pode ser observado que os exemplos acima estão aumentados e embelezados.
A História Elaborada — As histórias elaboradas são as Novelescas de
Dibellius e as Histórias Miraculosas de Bultmann e Taylor. Novamente, estas histórias são completas em si, mas contêm uma grande quantidade de detalhes. O interesse encontra-se no próprio milagre, e o "dito" (se existe um) de Jesus é de importância secundária. Estas narrativas são escritas para satisfazer à curiosidade do leitor, e, portanto, há sempre uma confirmação do milagre no final da narrativa. Estas são menos dignas de confiança que as histórias simples, e estão mais afastadas do evento. Dibellius alista nove desta forma de Marcos e uma de Lucas.
A Cura do Leproso, 1:40-45
O Acalmar da Tempestade, 4:35-41
O Endemoninhado Geraseno, 5:1-20
A Filha de Jairo e a Mulher com Fluxo de Sangue, 5:21-43
A Alimentação dos Cinco Mil, 6:35-44
Andando sobre as Águas, 6:45-52
A Cura do Surdo-mudo, 7:32-37
O Cego de Betsaida, 8:22-26
O Menino Epiléptico, 9:14-29
O Jovem de Naim, Lucas 7:11-17
Em comparação com passagens correspondentes, em Mateus e Lucas, vê-se uma tendência para diminuir-se a narrativa de Marcos a quase uma forma de "História Simples". A existência, lado-a-lado, de histórias simples e elaboradas, em Marcos, confirma a crença de que ele estava trabalhando com materiais recebidos. De outra maneira, no Evangelho, teria utilizado, quase exclusivamente, uma só forma.
Lenda Sagrada — As lendas sagradas são narrativas acerca de pessoas da história sagrada. A palavra lenda, em seu sentido primário, tem a ver com a vida de um santo. Lendas são histórias que foram construídas em torno de uma pessoa que esteve em contato com Jesus. A ênfase é colocada sobre essa pessoa, em vez de sobre o Senhor. Algumas das narrativas de Marcos foram transformadas em lendas (narrativas lendárias). Alguns dos casos a seguir são mais, aparentemente, lendas do que outros.
Marcos 11:1-10, A Descoberta do Jumento
Marcos 14:12-16, A Descoberta da Sala para a Última Ceia
Mateus 1:18-2:23, A Natividade
Mateus 14:28-33 (Marcos 6:47-52), Andando Sobre a Água
Mateus 16:13-20 (Marcos 8:27-30), Confissão em Cesaréia de Filipe
Mateus 27:1-10, A Morte de Judas
Lucas 1:5-2:40, A Natividade
Lucas 4:16-30 (Marcos 6:1-6), Jesus em Nazaré
Lucas 5:1-11 (Marcos 1:16,17), A Chamada de Pedro
Lucas 7:36-50 (Marcos 14:3-9), A Unção de Jesus
Lucas 19:1-10, Zaqueu
A História Mítica — As histórias míticas foram denominadas Histórias de Cristo, por Gunther Bornkamm. Este tipo de narrativa, em outras religiões, fala acerca de deuses que aparecem entre os homens (veja a suposição da multidão em Listra, Atos 14:11 e ss.). O mito puro não é encontrado no Novo Testamento, mas o conceito do Filho de Deus tendo um ministério terreno e provando sua divindade por milagres aproxima-se do mítico. As histórias individuais em que os elementos míticos são observáveis incluem o Batismo, A Caminhada sobre as Águas; a Transfi­guração e as Aparições do Senhor Após a Ressurreição.
Os parágrafos acima são todos sucintos demais, mas foram apresenta­dos para estimular o leitor a estudar mais nesta área. É a tarefa deste tipo de estudo distinguir os vários elementos nos Evangelhos e classificá-los, para facilitar a interpretação. É uma tentativa de reproduzir-se a situação de vida em que as narrativas receberam sua forma final. A fim de conseguir isto, há certas suposições sobre as quais o pesquisador deve basear seu trabalho. Ele tem que presumir um período dentre 30 a 40 anos que esteve destituído de documentos escritos. O material, substrato ou pericope deve ter flutuado em volta, independentemente, durante o período final. A classificação desses substratos é de suma importância.
Deve ser também presumido que a situação de vida determinou que materiais foram preservados ou usados pelo autor. As mesmas leis de tradição aplicáveis à literatura religiosa de outros países são presumidas de estarem em operação na formação da tradição dos Evangelhos. Deve ser presumido que os Evangelhos pertencem àquele vasto campo de literatura, conhecido como literatura popular, sagas, lendas e mitos, que entesoura histórias de interesse ou valor para certas pessoas. A Crítica da Forma é vista como sendo uma ramificação do estudo das Religiões Comparadas.
Com toda uma aparência de ciência acabada e obra terminada, há certas falhas quanto ao método de aproximação usado pela Crítica da Forma, e, conseqüentemente, em suas conclusões.  As seguintes são algumas das observações do autor e, naturalmente, não esgotam a lista.
1.  A Crítica da Forma falha em contar com os princípios seletivos, propósito e clímax, tão evidentes em cada Evangelho. Isto leva a Crítica da Forma a classificar o Evangelho como uma subliteratura.
2.  A Crítica da Forma subestima o interesse histórico e biográfico dos cristãos primitivos. Algumas coisas foram preservadas, as quais teriam sido registradas somente como o resultado de um interesse no aspecto histórico.
3.     A Crítica da Forma negligencia o fato de que Jesus preparara um grupo para transmitir as tradições que esses cristãos primitivos classifica­ram numa categoria diferente da das palavras dele. A presença de testemunhas oculares no período formativo e a capacidade delas em verificar e salvaguardar a tradição que esteve na escrita 20-40 anos depois de Cristo é negligenciada.
Ela negligencia, convenientemente, a possibili­dade de que a tradição delineou os interesses da comunidade, bem como a possibilidade de que os interesses da comunidade influenciaram a seleção da tradição. O caráter revolucionário de Jesus e suas palavras e feitos são também negligenciados. Este elemento torna absurda a criação pela comunidade. Também, é inconcebível que a comunidade fosse criar tantas situações problemáticas: batismo por João, maldição da figueira, etc.

4.  A Crítica da Forma falha em reconhecer a influência helenística no meio palestino, que explica certas tradições. Estas são explicadas, dizem os críticos da forma, pela datação tardia e influência estrangeira.
5.  A Crítica da Forma erra ao citar material extra-bíblico, bem como exemplos paralelos de tradições transmitidas. Não há paralelos. Não existe nenhum paralelo na transmissão dos materiais do Evangelho como um todo.
6.  A Crítica da Forma presume que a tradição ou a história sempre procede do simples para o complexo.
7.  A Crítica da Forma tira conclusões impróprias da analogia e de outras circunstâncias que não são necessariamente análogas. A pura analogia não é prova de dependência ou um argumento contra a his­toricidade.
8.   A Crítica da Forma faz uso demasiado do Sitz im Leben hipoté­tico. Ela alega que a situação histórico-social (hipotética) criou todas as formas para preencher uma necessidade (hipotética). A possibilidade de que o cristianismo e sua causa são suficientemente explicados nas situações de vida apresentadas nos Evangelhos é ignorada.
9.   A Crítica da Forma é demasiadamente subjetiva e arbitrária. Ela
rejeita o sobrenatural, em terrenos filosóficos, e cessa de ser objetiva.
Ela negligencia a evidência dos escritores do segundo século e os variados
interesses da igreja primitiva. Ela, injustificavelmente, presume que o
contexto, o cenário e os dados cronológicos não são de nenhum valor,
histórica, biográfica e cronologicamente.
10.   A Crítica da Forma negligencia a realidade de Cristo para a igreja primitiva, o fato de que os cristãos estavam prontos para morrer e morreram por sua crença nele e no poder do seu nome. Isto levou a Crítica da Forma a enfatizar excessivamente a Parousia como tal e desenfatizar aquele que havia de vir.
11.   A Crítica da Forma deprecia a educação da igreja primitiva.
12.   A Crítica da Forma negligencia que um tempo tão curto se passou antes de aparecerem os primeiros documentos escritos.
13.   A Crítica da Forma negligencia o tema e o esboço dos livros.
O valor da Crítica da Forma pode ser visto no fato de que este método de estudo ajudou a estabelecer a validade dos registros dos Evangelhos. Ela compeliu a um estudo do período oral e mostrou que os Evangelhos não vieram de apenas quatro homens, mas da comunidade inteira. O período oral foi um período dinâmico, não estático. Através deste campo de estudo, vê-se que é verdade que tais materiais, conforme foram preservados, são aqueles que suprem as necessidades.
CRITICA DA REDAÇÃO
Embora a expressão Crítica da Redação seja nova e relativa no que diz respeito a uma categoria definida, no campo dos estudos do Novo Testamento, a idéia básica sempre esteve presente na interpretação do Novo Testamento. Essa idéia é de que cada autor dos Evangelhos teve seu próprio propósito e plano na seleção de seus materiais para inclusão em sua narrativa. É comparativamente recente, todavia, que mais ênfase foi dada a este princípio básico de interpretação. De fato, a atual escola da Crítica da Redação só poderia ter surgido devido aos esforços tanto da Crítica da Fonte quanto da Crítica da Forma.
Por causa do aumento fenomenal na popularidade desta nova escola de estudo, as definições são abundantes. Uma das melhores definições é como segue:
Redaktionsgeschichte é a tentativa de chegar-se ao propósito ou pro­pósitos, visões e ênfases teológicas únicas que os evangelistas impuse­ram sobre os materiais disponíveis a eles.
Não estamos primordialmente preocupados com tudo o que os evan­gelistas criam. Antes, estamos preocupados em determinar a contri­buição única para as fontes e a compreensão delas pelos evangelistas.
Isto será encontrado em suas junções, comentário interpretativo, sumá­rios, modificações de material, seleção de material, omissão de mate­rial, disposição, introduções, conclusões, vocabulário, títulos cristológicos, etc. (Robert H. Stein, "What is Redaktionsgeschichte?" — O Que É Redaktionsgeschichte? — em Journal of Biblical Literature, LXXXVIII, março de 1969, p. 53.)
Uma definição mais concisa é que a Crítica da Redação é a tentativa de se discernir a ênfase teológica de cada um dos Evangelhos como um autor criativo focalizando a atenção sobre os aspectos especiais de sua obra inteira. Isto levaria em conta o acréscimo da situação da vida do autor aos fatores interpretativos dos Evangelhos, e dá a idéia distintiva de que o Evangelho individual deve ser tratado como um todo, em vez de simplesmente como uma coleção de pericopae (substratos).
Mais uma vez a figura-chave, no nascimento da Crítica da Redação, é Wilhelm Wrede. Ao escrever sobre o Segredo Messiânico nos Evange­lhos, Wrede deixou pelo menos duas contribuições, que levaram não somente à Crítica da Forma, mas também à Crítica da Redação. A primeira é que ele demonstrou que Marcos não poderia ser olhado como história simples, mas deve ser entendido como uma história interpretativa, à luz do propósito doutrinário do autor. A segunda contribuição está em seu próprio método de desenvolver seu argumento de que Marcos mostra um interesse dogmático em seu Evangelho.
A compreensão de Wrede da tendência teológica de Marcos não está baseada numa única e direta declaração do evangelista, mas numa síntese de tendências, que percorrem todo o Evangelho. Este tipo de síntese representa o método básico do crítico da redação, que busca uma visão total do livro que ele está estudando, a fim de determinar os traços do autor, que é entendido como sendo um editor ou redator.
Seguindo Wrede, as conclusões da escola da Crítica da Forma são de principal importância. De fato, todo crítico da redação bem conhecido confessa ser um crítico da forma ou discípulo de um dos pioneiros das escolas. Os resultados aceitos entre os críticos da forma que são básicos ao trabalho da crítica da redação são como segue:
1. Os Evangelhos, conforme agora os temos, não são criações simples de um tecido inteiro, mas consistem de coletâneas de material cuja seleção final e disposição devemos aos próprios evangelistas. Mar­cos é aqui a influência primária; ele criou a forma literária "Evange­lho", e Mateus e Lucas, ambos, o seguem e usam seu método.
2. O material agora apresentado nos Evangelhos tem uma história anterior de uso na igreja, em grande parte uma história de transmissão oral. Ele circulou na igreja na forma de unidades individuais ou pequenas coletâneas de material relacionado, e nesta forma serviu a funções definidas na vida e no culto da igreja.
3. As menores unidades de tradição, a história individual, o diálogo, o dito, etc, têm formas delineadas, que podem ser definidas e estuda­das. Cada uma destas formas serviu a uma função definida, numa situação, e no que é referido como o Sitz im Leben do material. (Norman Perrin, What Is Redaction Criticism? — O Que é a Crítica da Redação? — Guides to Biblical Scholarship, New Testament Series, ed. by Dan O. Via, Jr., Philadelphia: Fortress Press, 1969, p. 3-5.)
O interesse do crítico da forma, nas unidades individuais da tradição, permitiu-lhe prover uma história da tradição que o crítico da redação poderia presumir como sendo história verdadeira. Esta história separou as unidades de tradição da obra dos próprios evangelistas. O tipo de análise detalhada das pericopes dos Sinópticos foi básico para a obra do crítico da redação.
A fim de se ter uma apreciação válida para uma disciplina, é neces­sário entender-se os preceitos fundamentais que caracterizam os propo­nentes dessa disciplina. Há quatro suposições básicas nesta nossa discipli­na.
1. Os resultados da Crítica da Forma são as bases para maior desen­volvimento crítico. Os próprios discernimentos da Crítica da Forma não estão sujeitos ao exame escolar. Os quatro resultados principais da Crítica da Forma que são vitais são: (1) A forma "evangelho" é uma coletânea de pequenas unidades que foi inventada durante o período da composição do Novo Testamento. (2) As unidades individuais que formam o Evangelho tiveram uma história anterior de circulação como tradição oral, na igreja primitiva. (3) As formas destas unidades individuais foram definidas, estudadas, classificadas e categorizadas exaustivamente pelos seus ce­nários definidos na igreja primitiva. Estas formas existiam independentes da igreja e exerceram um poder através da comunidade, para traçarem as unidades de tradição. Esta história pode ser traçada e seus resultados são garantidos. (4) O propósito para a criação, circulação e uso destas unidades de forma não foi preservar uma história de Jesus, mas fortalecer a vida da igreja.
2. Os evangelistas atuaram como editores que se sentiam livres para retraçar os materiais, para os encaixarem em seus propósitos teológicos. Eles eram livres para modificar a forma da unidade básica, alterar a ordem dos eventos e ditos dentro de uma unidade, e inserir ou eliminar porções da unidade da tradição.
3. A análise comparativa das unidades reconstruídas de tradição, nos Evangelhos, pode ser uma ferramenta fecunda para o estudo da história teológica primitiva na igreja. As modificações igualmente surgiram da situação em que o evangelista viveu e trabalhou, e serviram para contar acerca dessa situação. Em particular, a modificação da tradição feita, pelo evangelista, de um Evangelho, pode ser esperada ser compatível e em concordância com sua inclinação dogmática pessoal.
4.           A hipótese da Fonte de Dois Documentos da crítica dos Sinóp­ticos está inteiramente provada e é necessária à compreensão das modifi­cações que foram feitas pelos evangelistas. Ê importante que a prioridade de Marcos seja estabelecida e que o documento "Q" seja bem definido. Desta forma, cada diferença menor entre o autor e sua fonte pode ser facilmente detectada. Mas, no caso de Marcos, os materiais-fonte são as unidades orais da Crítica da Forma, em vez de um documento definido. Como resultado, a Crítica da Redação de Marcos é admitida estar em terreno ligeiramente menos objetivo que a de Mateus e Lucas.
As técnicas usadas na Crítica da Redação são bem interessantes e iluminadoras. Deve-se ter em mente que o propósito desta disciplina é encontrar a teologia distintiva e o propósito de cada autor. A fim de aplicar o método indutivo a este processo e tentar dar-lhe tanta obje­tividade quanto possível, o processo inicia-se com as unidades de tradição, conforme elas foram identificadas pela Crítica da Forma.
O primeiro passo é ler-se cada pericope cuidadosamente, em sua inteireza, esquecendo-se todos os discernimentos obtidos de outra litera­tura do Novo Testamento e vida de Jesus. O segundo passo é observar os aspectos peculiares do material, na suposição de que estes são materiais de redação que refletem aquela inclinação teológica do editor. Isto requer uma "harmonia" em que os resultados da Crítica da Forma e da Crítica da Fonte foram marcados, para mostrarem claramente todos os aspectos especiais do editor. Onde existem materiais paralelos, as diferenças devem ser presumidas como repousando sobre a inclinação teológica peculiar do editor. Isto é particularmente importante quando aplicado aos Evange­lhos "secundários", Mateus e Lucas. Suas diferenças entre Marcos e a "Q" são consideradas como sendo indicadoras especialmente fortes de modificação editorial.
O terceiro passo é analisar o substrato em relação ao restante do Evangelho em estudo. Este processo envolve a coleta de uma lista de usos especiais de certos termos que são encontrados no substrato individual como peculiares a esse Evangelho. Se há uma alteração sistemática no material-fonte, espera-se que este passo a encontre. Este é o momento de reunir os discernimentos que foram obtidos a partir dos substratos.
O passo final é, tendo-se formado uma hipótese do propósito dogmático do autor, testar esta hipótese contra algumas dos outros substratos, a fim de mostrar se ela é válida. Neste processo é freqüentemente possível encontrar-se unidades adicionais de material peculiar, as quais são relevantes para a hipótese, mas não foram percebidas na análise anterior (Norman Perrin, What Is Redaction Criticism?).
Esta breve discussão da Crítica da Redação não oferece uma base adequada para conclusões finais acerca do ensino dos Evangelhos Sinóp­ticos. Ela serve, antes, para enfatizar os problemas complicados que estão envolvidos na tentativa de uma solução do Problema dos Sinópticos.
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